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Dias na Birmânia, revisitado 

Publicado por: Redação Irã News
Autor: Pepe Escobar
Publicada em 08/02/2021 às 16:52
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Pepe Escobar, Strategic Culture Foundation, traduzido com autorização do autor

“A memória mais remota de U Po Kyin, na década de 1880, era a de ter assistido de pé, ainda um menino nu e barrigudo, ao desfile dos soldados britânicos que entravam triunfalmente em Mandalay. Lembrou-se do terror que sentira diante daquelas colunas de homens imensos alimentados de carne bovina, com seus rostos corados e casacos vermelhos; e dos fuzis de cano longo que traziam presos ao ombro, e do trovejar pesado e rítmico de suas botas. Saíra correndo, depois de vê-los marchar por alguns minutos. A seu modo infantil, percebera que seu povo não tinha a menor condição de enfrentar aquela raça de gigantes.
Alinhar-se do lado dos britânicos, transformar-se num parasita deles, constituiu sua maior ambição desde a infância” (ORWELL, George, Dias na Birmânia (1934). Trad. Sergio Flaksman, São Paulo: Companhia das Letras, 2008.*
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O elefante (de jade) no meio da sala adornada em que mora o golpe militar em Myanmar tinha de ser – é claro! – a China. E Tatmadaw – as Forças Armadas de Myanmar – sabem disso melhor que todos.

Não se encontrou a arma do crime, claro, mas é virtualmente impossível que Pequim não tenha sido no mínimo informada ou “consultada” pelas Tatmadaw, sobre o novo arranjo.

A China, principal parceiro comercial de Myanmar, é guiada por três imperativos estratégicos cruciais no relacionamento com o vizinho do sul: comércio/conectividade por um corredor da Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE); pleno acesso a energia e minérios; e a necessidade de cultivar um aliado chave entre as dez nações da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ing. ASEAN).

O corredor que integra a ICE, de Kunming, na província chinesa de Yunnan, via Mandalay, até o porto de Kyaukphyu no Golfo de Bengala é a joia da coroa da Nova Rota da Seda, porque combina acesso estratégico da China para o Oceano Índico, contornando o Estreito de Malaca, com fluxo protegido de energia por um oleogasoduto. Esse corredor mostra claramente a centralidade do Oleogasodutostão (ing. Pipelineistan; port. sobre o Oleogasodutostão aqui e aqui, dentre outras páginas) na evolução das Novas Rotas da Seda.

Nada disso mudará, não importa quem comande o show político-econômico na capital de Myanmar, Naypyidaw. O ministro chinês das Relações Exteriores Wang Yi e Aung San Suu Kyi, conhecida localmente como Amay Suu (“Mãe Suu”) discutiram o corredor econômico China-Myanmar apenas três semanas antes do golpe. Só em 2020, Pequim e Naypyidaw assinaram nada menos de 33 acordos econômicos.

Só queremos “paz perpétua”

Algo bastante extraordinário aconteceu no início dessa semana, em Bangkok. Membros da vasta diáspora de Myanmar na Tailândia – que cresce desde os anos 1990s – reuniram-se diante do escritório da ONU no Pacífico Asiático.

Pediam que a reação internacional ao golpe ignorasse as sanções dos EUA já próximas. Seu argumento: sanções paralisam o trabalho dos cidadãos empreendedores, e mantêm intacto um sistema de apoios que reforça a presença das Forças Armadas de Myanmar e aprofunda a influência de Pequim nos níveis mais altos.

Mas nem tudo tem a ver com a China. O golpe é questão eminentemente doméstica, em Myanmar – que envolveu recorrer ao mesmo método da velha escola ao estilo da CIA e que, nos idos de 1962, instalou no país uma dura ditadura militar.

Eleições em novembro passado confirmaram Aung San Suu Kyi e o partido dela, a Liga Nacional para a Democracia (ing. NLD), no poder, com 83% dos votos. O partido pró-forças armadas, Partido União, Solidariedade e Desenvolvimento (ing. USDP), não aceitou o resultado, falou de fraude eleitoral massiva e insistiu que os votos fossem recontados, medida que o Parlamento não autorizou.

Tatmadaw invocou o artigo 147 da Constituição, que autoriza as forças armadas a assumir o poder em caso de ameaça confirmada à soberania e à solidariedade nacional, ou capaz de levar à “desintegração da União”.

A Constituição de 2008 foi redigida – claro! – pelas próprias forças armadas. Que controlam os ministérios cruciais do Interior, da Defesa e das Fronteiras, além de 25% dos assentos no Parlamento, o que lhes dá poder de veto em qualquer tipo de alteração na Constituição.

O golpe implica militares no comando do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Estado de emergência com duração de um ano, já implantado. E haverá novas eleições, quando se restaurarão a ordem e a “paz perpétua”.

Quem está no comando é o comandante-geral do Exército Min Aung Hlaing, já milionário depois de anos durante os quais supervisionou sumarentos acordos e negócios conduzidos pela empresa Myanmar Economic Holdings Ltd., MEHL. Também supervisionou a resposta linha-dura à revolução [cor de] Açafrão de 2007 – que manifestava anseios legítimos, mas foi também cooptada em grande medida como mais uma revolução colorida ‘de manual’, estimulada pelos EUA.

Mais preocupante, Min Aung Hlaing também se serviu de táticas de terra arrasada contra grupos étnicos Karen e Rohingya. O mesmo Hlaing descreveu a operação Rohingya como “serviço inacabado do problema de Bengala”. Muçulmanos são rotineiramente desqualificados por membros da maioria étnica Bamar, como “Bengali”.

ASEAN não se manifestará nem comentará

A vida para a grande maioria da diáspora de Myanmar na Tailândia pode ser muito dura. Cerda de metade dela trabalha no negócio da construção, na indústria têxtil e no turismo. A outra metade não têm visto válido para trabalhar e vive sob medo perpétuo.

Para complicar ainda mais as coisas, no final do ano passado o governo de fato da Tailândia, dos militares, passou a culpar em tempo integral todos os vindos de Myanmar, acusando-os de cruzar a fronteira sem respeitar as ordens de quarentena e, assim, causando uma segunda onda de Covid-19.

Sindicatos tailandeses, apontaram corretamente os reais culpados: redes de ‘coiotes’ protegidas por militares tailandeses que dão cobertura ao ingresso de migrantes, facilitando-lhes meios para contornar o processo extremamente complicado para legalizar a situação e poder trabalhar no país, ao mesmo tempo em que garantem proteção a empregadores que infringem leis trabalhistas.

Paralelamente, parte da diáspora de Myanmar – a parte legalizada – está sendo atraída pela chamada Aliança Chá com Leite [ing. MilkTeaAlliance], que congrega tailandeses, taiwaneses e oriundos de Hong Kong, e mais recentemente também oriundos do Laos e das Filipinas – contra, claro, a China e, em segundo lugar, também contra o governo militar da Tailândia.

A Associação das Nações do Sudeste Asiático [ing. ASEAN] não se manifestará contra as Forças Armadas de Myanmar, Tatmadaw. A política oficial da ASEAN continua a ser de não interferência em assuntos internos dos 10 países-membros. Bangkok – onde, só para lembrar, a junta militar tomou o poder em 2014 – mostrou distância olímpica.

Em 2021, Myanmar está na coordenação de nada menos que o mecanismo de diálogo China-ASEAN; e também preside a Cooperação Lancang-Mekong – que discute assuntos do Mekong, absolutamente cruciais.

O poderoso rio Mekong, do planalto tibetano até o Mar do Sul da China, não poderia ser mais estratégico em termos geoeconômicos. A China tem sido severamente criticada pela construção de dúzias de barragens, que reduzem os fluxos diretos de água e causa graves desequilíbrios nas economias da região.

Myanmar também está na coordenação de outra questão geopolítica supremamente sensível: as intermináveis negociações para estabelecer o Código de Conduta no Mar do Sul da China, negociações em que a China está posicionada contra Vietnã, Malásia, Filipinas, Indonésia, Brunei e Taiwan (não-ASEAN).

As Forças Armadas Tatmadaw não parecem ter perdido o sono por causa de problemas comerciais pós-golpe. Erik Prince,** ex-Blackwater e atualmente na presidência do Frontier Services Group (FSG) que tem sede em Hong Kong – financiado, dentre outros, pelo poderoso conglomerado chinês Citic – está chegando a Naypyidaw para “garantir a segurança” de empresas locais.

Dossiê mais sumarento envolve o que acontecerá ao comércio de drogas: tudo faz crer que Tatmadaw estaria recebendo fatia ainda mais gorda do bolo. Cartéis no estado de Kachin, ao norte, exportam ópio para a província chinesa de Yunnan a leste, e para a Índia a oeste. Cartéis do estado de Shan são até mais sofisticados: exportam via Yunnan para Laos e Vietnã a leste, e também para a Índia a noroeste.

E há uma área cinzenta, na qual ninguém sabe realmente o que se passa: a rodovia das armas entre China e Índia, que atravessa o estado de Kachin – onde também se encontram os grupos étnicos Lisu e Lahu.

A tapeçaria enlouquecedora das etnias

A comissão eleitoral de Myanmar é assunto muito cheio de meandros, para dizer o mínimo. Os membros são nomeados pelo Executivo e enfrentaram muitas críticas – no país, não internacionalmente – por terem censurado partidos de oposição nas eleições de novembro.

O resultado final privilegiou a Liga Nacional para a Democracia (ing. NLD), cujo apoio é praticamente nulo em todas as regiões de fronteira. O grupo étnico majoritário em Myanmar – e base eleitoral da Liga Nacional para a Democracia – é o Bamar, budista e concentrado na parte central do país.

A Liga Nacional para a Democracia francamente não dá qualquer atenção às 135 minorias étnicas – que representam no mínimo 1/3 do total da população. Já faz muito tempo que Suu Kyi chegou ao poder, tempos em que a Liga Nacional para a Democracia realmente contava com grande apoio. O destaque internacional que Suu Kyi tem recebido explica-se, na essência, pelo poder da máquina de propaganda e poder dos Clintons.

Se se conversa com alguém nos estados de maioria Mon ou Karen, ele ou ela contará que aprenderam pela via mais difícil o quanto autocrática e intolerante é a verdadeira Suu Kyi. Ela lhes prometeu que haveria paz nas regiões de fronteira – perpetuamente mergulhadas em lutas entre as Forças Armadas de Myanmar e movimentos autônomos. É possível que Suu Kyi nada tenha podido fazer, pela suficiente razão de que não tivesse qualquer poder real sobre os militares.

Sem consultar ninguém, a comissão eleitoral decidiu cancelar a votação, total ou parcialmente, em 56 cantões dos estados de Arakan, Shan, Karen, Mon e Kachin – nos quais vivem essas minorias étnicas. Quase 1,5 milhão de pessoas ficaram impossibilitadas de votar.

Não houve votação, por exemplo, na maior parte do estado de Arakan; a comissão eleitoral invocou “razões de segurança”. E realidade é que as forças armadas de Myanmar estão envolvidas em luta pesada contra o Exército Arakan – que combate pela autodeterminação.

Desnecessário dizer que os Rohingyas não puderam votar. Cerca de 600 mil Rohingyas continuam em campos de concentração e em vilas cercadas, onde mal conseguem sobreviver, no estado de Arakan.


Mapa Etnolinguístico de Myanmar
 (elaborado pela CIA)***

Nos anos 1990s, visitei o estado de Shan, que faz fronteira com a estratégica província de Yunnan a leste. Nada de muito significativo mudou ao longo de duas décadas: guerrilheiros tiveram de dar combate a Tatmadaw, porque veem claramente o quanto o exército e seus asseclas e cúmplices estão obcecados com se apropriarem dos fartos recursos naturais da região.

Viajei por grande parte do território de Myanmar na segunda metade da década dos 1990s – antes de ser posto na lista negra da junta militar, como praticamente todos os jornalistas e analistas que trabalham no Sudeste da Ásia. Há dez anos, o fotojornalista Jason Florio, com quem andei por todo canto, do Afeganistão ao Cambodia, conseguiu infiltrar-se no território dos Karen rebeldes, onde fez algumas fotos fantásticas.

No estado Kachin, partidos rivais nas eleições de 2015 conseguiram, dessa vez, unir esforços. Mas no fim saíram gravemente arranhados – o mecanismo eleitoral – de um só turno – favoreceu o partido vitorioso, a Liga Nacional para a Democracia (ing. NLD), de Suu Kyi.

Pequim não interfere no pântano alucinantemente complexo das etnias em Myanmar. Mas permanece a questão do apoio obscuro aos chineses que vivem no estado de Kachin, no norte de Myanmar: é possível que possam ser usados para alavancar negociações com as Forças Armadas de Myanmar, Tatmadaw.

Fato básico é que a guerrilha não sairá de lá. O dos principais grupos guerrilheiros são o Exército pela Independência Kachin e o Exército Unido do Estado Wa (etnia Shan). Mas há também o Exército de Libertação Arakan, o Exército Nacional Chinês, o Exército Karenni (Kayah), a Organização de Defesa Nacional e Libertação Nacional Karen, e o Exército de Libertação Nacional Mon.

O que essa tapeçaria de etnias armadas até os dentes manifesta, no longo prazo, é um estado tremendamente (Des)Unido de Myanmar, o que reforça o argumento dos militares, de que nenhum outro mecanismo conseguirá garantir a unidade. E não veem qualquer inconveniente em que a “unidade” venha acompanhada de benefícios extras como a capacidade para controlar setores nacionais cruciais como minérios, finanças e telecomunicações.

Será fascinante assistir ao modo como os Estados (Des)Unidos Imperiais lidarão com Myanmar pós-golpe, considerado o frenesi em que vivem, 24 h/dia, 7 dias/semana, no  para “conter” a China. Tatmadaw – as Forças Armadas de Myanmar –, não estão exatamente tremendo de medo.*******

* Epígrafe acrescentada pelos tradutores.

** Link acrescentado pelos tradutores.

*** Mapa copiado da CIA e inserido pelos tradutores.

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